terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Quando usar sessão, cessão, seção ou secção

Nessa semana, recebi, por e-mail, uma dúvida a respeito das palavras de mesma pronúncia empregadas na seguinte oração “A sessão da Câmara tratou da cessão do terreno para a criação da seção de trânsito no município”. O leitor questionava-me sobre as diferentes formas de escrita das palavras sessão, cessão e seção.
Vocábulos que possuem mesma pronúncia, como os da oração, são chamados de homófonos (homo = igual / phonos = som). Quanto à grafia, esses mesmos vocábulos possuem significados e origens diferentes no latim e, por consequência, possuem grafias diferentes em português, ou seja, são heterógrafos (hetero = diferente / grafo = escrita).
Sessão vem do latim sessione e tinha como significado o ato de assentar-se. Hoje a palavra é usada para se referir à reunião de pessoas em ambientes como cinemas, plenários, clubes etc. Cessão vem de cessione, que, por sua vez, vem do verbo cedere (ceder em português), que significa transferir os direitos ou a posse a outro. O terceiro vocábulo, seção, origina-se de sectione e é usado hoje em dia para se referir às divisões ou partes de um todo, ou, ainda, aos setores ou divisões de órgãos públicos. É possível se usar a variação ortográfica secção, que possui exatamente o mesmo significado e consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
Assim, recorrendo à origem dos vocábulos, é possível explicar as diferentes grafias de palavras que possuem hoje exatamente a mesma pronúncia.
Quanto à oração apresentada, ao considerarmos o sentido de cada uma das palavras, pode-se “traduzi-la” da seguinte forma: “A reunião da Câmara tratou da transferência de posse do terreno para a criação da divisão de trânsito do município”. É isso. Até a próxima.

“Abrido”, “cobrido”, “escrevido” Será que essas formas existem?

Alguns verbos possuem formas duplas de particípio. Além da forma regular, com final –do, como em imprimido, há também outra forma, irregular, advinda do latim, como em impresso.
A forma regular, geralmente, é usada em tempos compostos com os verbos auxiliares ter e haver e a forma irregular, usada com os verbos ser, estar e ficar, na voz passiva. Por exemplo, para o verbo imprimir, é possível se dizer: “Eu havia imprimido o trabalho ontem, portanto, hoje, o trabalho está impresso”. Para o verbo aceitar, diz-se: “Apesar do patrão ter aceitado as desculpas, ele não foi (verbo ser) aceito de volta no emprego”. O mesmo princípio vale para os demais verbos com duas formas de particípio, como acender (acendido/aceso), corrigir (corrigido/correto), entregar (entregado/entregue), fritar (fritado/frito), incluir (incluído/incluso), morrer (morrido/morto), pegar (pego/pegado), salvar (salvado/salvo), secar (secado/seco), segurar (segurado/seguro), soltar (soltado/solto), suspender (suspendido/suspenso). Os verbos ganhar, gastar e pagar, apesar de possuírem a forma regular, são, comumente, usados na forma irregular de particípio, tanto com os auxiliares ser e estar, quanto com ter e haver (ganho, gasto e pago). Os verbos abrir, cobrir e escrever possuem somente a forma irregular (aberto, coberto e escrito). “Abrido”, “cobrido” e “escrevido” não figuram no dicionário. É importante lembrar que a maioria dos verbos possui apenas a forma regular de particípio, com –do no final. É o caso do verbo chegar, que possui apenas a forma chegado. “Chego” não pode ser usado como particípio. Até a próxima.

Não confunda Paraná (PR) com praseodímio (Pr)

Nessa semana, recebi um e-mail que questionava a abreviatura utilizada na manchete do BOM DIA - São José do Rio Preto de quinta-feira, “Família fica 40h na fila para comprar máquina de lavar”. Para o leitor, a forma abreviada de horas, seria ‘hs’ e não apenas ‘h’.
O uso de abreviaturas é regulamentado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Para hora ou horas, a forma correta é apenas a letra ‘h’. Da mesma forma, a abreviatura de metro(s) é somente a letra ‘m’, de litro(s), a letra ‘l’, de grama(s), a letra ‘g’, de tonelada(s), a letra ‘t’ (aliás, “ton.”, comumente usado em placas, segundo a ABNT, é a abreviatura de tonel).
As medidas acima, quando multiplicadas por mil, recebem, antes das letras g, l e m, a letra ‘k’ minúscula, que sinaliza mil vezes. Por exemplo, kg (quilograma = mil gramas), km (quilômetro = mil metros), kl (quilolitro = mil litros). É importante notar que a abreviatura é escrita com ‘k’, mas a palavra é escrita com ‘qu’.
Para simbolizar a divisão das medidas (g, m, l) por mil, acrescenta-se ‘m’ antes da letra: mg (miligrama = grama dividido por mil), mm (milímetro = metro dividido por mil), ml (mililitro = litro dividido por mil).
É comum encontrarmos abreviaturas grafadas de forma incorreta. Lit., por exemplo, não é abreviatura de litro, mas, de literatura; gr. pode significar grão, grosa ou grau, nunca grama. Metr. é a forma abreviada de Metrologia.
A discussão me fez recordar um fato interessante relatado por um professor de Química. Segundo ele, em um congresso da área, um renomado pesquisador propôs uma palestra intitulada “A importância do Pr na indústria mundial”. Curioso e imaginando que o “Pr” queria dizer Paraná (estado brasileiro), o professor assistiu a toda palestra e, ao final, surpreso, descobriu que “Pr” era a abreviatura de praseodímio, elemento químico de número 59 da tabela periódica, usado em ligas metálicas. Que decepção! Até a próxima.

Começa a guerra do Paulistão

Uma conhecida marca de cerveja brasileira tem veiculado a ideia de que os jogadores de futebol são verdadeiros guerreiros. Um dos principais ícones da campanha é o corintiano Ronaldo, considerado um grande lutador dentro e fora dos gramados.
A comparação entre guerra e futebol não é recente, ao menos se considerarmos o vocabulário usado por narradores, jogadores, técnicos e torcedores brasileiros. Vejamos.
Tudo se inicia na concentração, onde o comandante abre mão de sua experiência em confrontos anteriores para armar seus combatentes. Já no início do duelo, o treinador lembra que vencer a batalha é importante para não morrer na praia. Nessa hora, são importantes as estratégias ofensivas e defensivas, a proteção dos setores vulneráveis e a disciplina.
Em campo, os jogadores, com bravura, têm a missão de derrotar o oponente. Os atacantes e, entre eles, o grande artilheiro, têm a função de atingir a meta do adversário. Por descuido do arqueiro ou da defesa, o ponta de lança pode cruzar a área adversária e passar para o matador furar o bloqueio. Os desarmes são fundamentais no combate.
Para que a bomba do rival não atinja o objetivo, o importante é posicionar bem a barreira. Tem barreira que é uma verdadeira muralha. No caso de bombardeio do inimigo, o jeito é apelar para o contra-ataque, que pode ser mortal, se for feito pelos flancos. Aí é só fuzilar a retaguarda do opositor e correr para abraçar o capitão. O responsável pela vitória vira um herói e tem direito de beijar seu escudo diante da multidão. É nesse momento que o grito de guerra da torcida toma conta da arena, numa explosão de alegria. Pois é, confronto, combatentes, batalha, artilheiro, atacante, defesa, matador, felizmente, são apenas metáforas do futebol. Nessa guerra, travada no gramado, durante 90 minutos, ninguém morre. Que comece o Paulistão 2010!

O eufemismo do ministro Jobim

Há alguns dias, referindo-se à tragédia causada pelo terremoto do Haiti, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou o seguinte, em relação aos brasileiros não encontrados: “Evidentemente que a palavra ‘desaparecido’ aqui funciona como um eufemismo.”.
O eufemismo, a que o ministro se refere, é uma figura de pensamento que consiste na substituição de uma palavra ou expressão com sentido desagradável por outra, com a finalidade de amenizar seu significado.
É comum usarmos eufemismos com o intuito de preservarmos nossa face e não magoar outras pessoas. No trabalho, eles contribuem para uma convivência harmoniosa. Por exemplo, você já disse a sua colega de trabalho que o corte de cabelo, pelo qual ela pagou uma pequena fortuna, ficou horrível? É possível que você tenha pensado isso, mas dito apenas que ficou diferente. Nesse caso, “diferente”, é um eufemismo para horrível. E o filho pequeno do seu chefe? Por mais que você ache que o “capetinha” causa transtorno a todo o ambiente de trabalho, é prudente taxá-lo apenas de esperto, inteligente, curioso, interessado ou precocemente amadurecido. Esse último é um ótimo eufemismo para evitar dizer que a criança é enxerida, intrometida ou mal-educada. O ministro Nelson Jobim foi feliz na escolha do eufemismo “desaparecidos” em lugar da palavra “mortos”. O que chocou foi a revelação de que se tratava de um eufemismo. Seria o mesmo que dizer a um amigo que a nova namorada dele é simpática e revelar, segundos após, que “simpática” é um eufemismo. Além disso, a declaração não soou bem por ser feita prematuramente, já que, dias após a entrevista coletiva, pessoas ainda são encontradas com vida em meio aos escombros. Fica a dica. Se usar um eufemismo, não diga que usou. É isso. Até a próxima.

Crase: use com moderação!

Em relação à crase, tenho notado algo intrigante. É mais comum o uso desnecessário do que a falta de uso do acento grave em contextos obrigatórios. Levando isso em consideração, tratarei hoje de alguns contextos em que não se deve usar o acento indicador de crase.
A crase é o fenômeno de contração de duas vogais semelhantes, no caso, dois ‘as’. O caso mais comum de crase é o de preposição + artigo feminino. E aí está uma questão fundamental. Se, para haver a crase, é necessário um artigo feminino, nunca há crase antes de substantivo masculino. Por exemplo, “Dei o livro a João”, “Vou a pé”, “Vou a cavalo”. João, pé e cavalo, são substantivos masculinos.
Da mesma forma, nunca se usa um artigo feminino antes de um verbo no infinitivo e, por consequência, não se usa crase. Por exemplo, “A seguir, cenas dos próximos capítulos” ou “Roupas a partir de um Real”. Também não se usa artigo feminino antes dos dias do mês, portanto, não há crase na indicação de períodos de tempo (por exemplo: promoção especial de 14 a 19 de julho). Alguns pronomes nunca são usados com artigo definido, portanto, não há crase antes desses pronomes. Vejamos: “A quem devo pagar” ou “Envio a você o arquivo”. Note que antes de quem ou você, nunca se usa artigo feminino ‘a’. Se há um pronome indefinido (uma) antes da palavra, não se usa crase, pois não é possível usar juntos pronomes indefinido e definido. Observe: “A briga chegou a uma situação ridícula”, sem crase. Vale ainda a velha dica de realizar a substituição do substantivo feminino pelo equivalente masculino. Se não houver necessidade do acréscimo do artigo masculino junto ao ‘a’, isso indica que, com a palavra feminina, não se usa acento no ‘a’. Por exemplo, caso haja dúvida se o ‘a’ de “Aberto de segunda a sexta-feira” deve ou não ser acentuado (crase), troca-se o sexta-feira (feminino) por domingo (masculino) e tem-se: “Aberto de segunda a domingo”. Como não houve acréscimo de artigo masculino junto ao ‘a’, não há crase na primeira oração. Até a próxima.

Brasil, uma nação de 230 línguas diferentes

É muito comum ouvirmos a orgulhosa afirmação de que o Brasil é uma imensa nação de 180 milhões de falantes de língua portuguesa. Não deixa de ser louvável o fato de pessoas de regiões tão distantes como Sul e Norte conseguirem interagir de maneira satisfatória e compartilhar culturas, ao mesmo tempo, tão diferentes e interessantes.
Em debate dessa semana, no Simpósio Internacional de Letras e Linguística, realizado na Universidade Federal de Uberlândia, o professor emérito da Universidade de Brasília, Aryon Rodrigues, no auge de seus 84 anos, dos quais mais de 60 dedicados ao estudo das línguas indígenas, afirmou que o Brasil possui hoje, aproximadamente, 230 línguas diferentes. Desse total, 200 delas faladas por povos indígenas, que habitam o território em período anterior ao do “descobrimento”. Um número, a princípio, elevado, mas que, se comparado às cerca de 1200 línguas existentes no ano de 1500, demonstra a empreitada portuguesa de submissão do elemento indígena no território brasileiro. Considerando o desaparecimento de aproximadamente 1000 línguas em 500 anos, é possível concluirmos que duas línguas indígenas desapareceram a cada ano.
A dimensão do problema fez com que a Organização das Nações Unidas interviesse junto ao Governo Federal, no intuito de barrar a extinção desse patrimônio imaterial brasileiro. Uma das medidas adotadas foi a inclusão do chamado fator língua no questionário do IBGE, o que permitirá o conhecimento dos locais e indivíduos falantes dessas línguas e, além disso, propiciará a execução de políticas de monitoramento das comunidades indígenas em processo de dissolução. Obviamente, há a necessidade de que outras medidas conservativas sejam tomadas, como a catalogação de inúmeras línguas que ainda não possuem modalidade escrita e que sobrevivem somente na boca de seus poucos falantes. Além disso, não se devem desconsiderar outras dezenas de línguas de origem europeia e asiática, trazidas por imigrantes, que ainda permanecem vivas em algumas comunidades isoladas de todo o Brasil.